terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Capas feias?

Uma coisa que eu tinha decidido era de não mais falar mal do trabalho alheio - por mais que isso seja divertido, no caso das capas da Martin Claret (mas agora mesmo eles começaram a fazer projetos gráficos decentes e creditar tradutores, e assim o mundo perde o sentido) por que não quero usar esse espaço de forma negativa, muito menos ganhar inimizades, ou perder tempo falando sobre coisas de que não gosto, quando há tanto trabalho bom nas prateleiras todo mês e nem sempre lembro de colocar aqui. Porém, PORÉM, eu já tinha separado três capas de que queria comentar. Três capas que, por diferentes motivos, foram consideradas “feias”, e aqui as aspas servem para ressaltar o caráter subjetivo e pessoal de qualquer avaliação estética, seja a sua, a minha ou a do designer da capa.

Uma, é a capa do livro da Ana Maria Braga, A espera dos filhos da luz – mensagens, que vamos tomar como referência de “livro de celebridade”.


Convenhamos que ninguém que realmente leva suas leituras vai se preocupar com um livro escrito pela Ana Maria Braga, então vamos nos sentir à vontade em cair no preconceito de que o livro é ruim sem sequer tê-lo lido. E temos uma capa onde o elemento principal é a foto do AUTOR do livro, o que, fora biografias ou obras de autores mortos, é coisa bem rara pra quem estréia na ficção. É de se imaginar que o editor não veja que outro motivo alguém teria para comprar o livro que não fosse o peso do nome da autora, portanto taca-lhe foto na capa (lembrando que, apesar do que o título dá a entender - e o subtítulo reforça - não é um livro espírita, mas um livro de ficção). Então, temos uma capa bem perdida na sua proposta para um livro que parece bem perdido na sua proposta, arrisco dizer: temos uma capa de livro ruim para um livro ruim, portanto a capa reflete o conteúdo do livro, portanto é uma capa bastante sincera, logo, é uma excelente capa. Parabéns ao designer.


O outro exemplo é a capa do Associação Judaica de Polícia do Michael Chabon. É um livro que tem dois anos, e como eu disse, não vejo sentido em falar mal do trabalho alheio, ainda mais que neste caso específico, onde a designer Flávia Castanheira tem outros ótimos trabalhos com capas. Mas acontece que a) sou muito fã dos livros do Chabon, e b) sou muito fã do design que os livros dele ganham lá fora. A edição americana de Yiddish Policeman Union, um livro policial hard-boiled sobre uma colônia judaica no Alaska, tem uma capa simulando uma tapeçaria inuit com elementos judaicos e policiais. As capas das edições inglesas buscam o lado pulp com um design mais duro, vetorial, como um livro dos anos cinquenta. A edição brasileira parece um WordArt. O fundo, um padrão formado por várias estrelas de davi e cristais de gelo, é prata, e não cinza como aparece na imagem, mas o efeito bacana que isso provoca no livro físico é diminuído pela ilustração vetorial básica e sem impacto, e as fontes que não parecem conversar com o resto do design. Especialmente triste se pensarmos que Chabon é um autor conhecido por sua capacidade quase infinita de criar descrições surpreendentes e inesperadas de imagens e cores. Diferente do primeiro exemplo, temos aqui um ótimo livro, com uma capa que não está a sua altura.


Terceiro e último exemplo: diversas pessoas vieram me perguntar o que achei da capa do Solar, do Ian McEwan (design de Kiko Farkas e Thiago Lacaz / Máquina Estúdio), assim que foi divulgada. Eu próprio twittei: que horror essa capa. Ter visto ela numa imagem em baixa-resolução também não ajudou muito na minha percepção inicial. Amigos escritores, igualmente fãs de McEwan, vieram me pedir: me explica aquela capa. Calma, vamos lá. Minha impressão inicial não foi nada boa, até ver o livro na prateleira. Vamos por partes: Solar é um livro sobre um cientista vencedor do Nobel, abordando questões sobre o aquecimento global. É também uma comédia, fato que por si só é uma mudança de tom na obra do McEwan, e, ainda não li o livro pra dizer por mim mesmo (é o próximo na fila), dizem ser engraçadíssimo. Isto colocado, temos na capa o rosto não de um urso polar, mas de um tapete de urso polar – nosso urso está bem morto, portanto. Isso dentro do contexto de aquecimento global já diz bastante. Mas também a foto do tapete de urso dá a impressão de que ele está rindo – morto, mas feliz. Conseguiu-se aqui condensar todos os principais elementos do livro numa única imagem, e se isso não for o bastante, basta dizer que, independente dos critérios individuais e subjetivos para avaliação do que é de bom ou de mau gosto, coloque esse livro numa prateleira ao lado de toda a produção editorial do mês, e você verá esse urso polar morto rindo da sua cara se destacando a metros de distância. Pegue-o na mão e ainda sentira o verniz texturizado que deixa a capa áspera ao toque, um diferencial interessante e pouco utilizado. Na verdade, no conjunto da capa como um todo, a capa de Solar é uma das melhores capas que vi serem lançadas em 2010.

13 comentários:

Carlos André Moreira disse...

Um último comentário com relação ao tapete de urso na capa de Solar: o livro se divide em três partes separadas no tempo: 2000, 2005 e 2009. Na primeira delas, um tapete de urso de gosto duvidoso jogado no piso do apartamento em que o Nobel mora com sua então esposa tem destaque na trama e em suas consequências pelos anos afora. Na prática, muito do que acontece no livro, em última análise, se deve a esse tapete de urso, o que também pode justificar a escolha, além das interpretações que fizeste e com as quais concordo.
Abraço.

Milton Ribeiro disse...

Também acho boa e pertinente a capa de Solar.

Anônimo disse...

Também gostei da capa do Solar. E parabéns pelas duas últimas frases no texto sobre o livro de Ana Maria Braga. O raciocínio até a conclusão "...logo é uma excelente capa. Parabéns ao designer". Ri sozinho.

Pips disse...

A capa de Solar simboliza, além da questão do aquecimento, a reviravolta da trama (que é bem hilária).

Apesar de ser engraçado ele fica repetitivo na terceira parte.

Faraon disse...

Bueno, tô lendo o livro neste instante e vim aqui pra dizer exatamente o que o Carlos André já disse.

Só que, no meu entender, usar um elemento tão central do livro e MOSTRAR COMO ELE É sempre é uma péssima ideia. É como mostrar rostos. De certa maneira, uma muleta para a imaginação do leitor (que ele não pediu).

Mas nunca achei esta uma capa ruim, antes de conhecer a trama.

Samir Machado disse...

Faraon: Poisé, sou muito contra colocar a idéia de colocar a imagem de um rosto na capa de um livro, por essa questão de limitar a imaginação do leitor. Mas no caso de um tapete de urso polar, não é bem um objeto sujeito a muitas variações na imaginação, a princípio.

E acho a capa do Solar ótima, caso não tenha ficado claro no texto principal, apesar da minha reação negativa inicial, e da de várias pessoas que comentaram pessoalmente comigo, num momento inicial.

Tuca. disse...

Calma, deu pra entender direitinho que você elogiou a capa. Eu também faço direto isso no meu blog: explico alguns diversos motivos que me fizeram ter preconceito com aquele livro/hq pra somente depois listar as razões pelas quais gostei.

Linkei teu blog tá, curti bastante e dia desses fiquei um tempão vendo TODAS as postagens, hehehe.

Abraço!

Tuca. disse...

Calma, deu pra entender direitinho que você elogiou a capa. Eu também faço direto isso no meu blog: explico alguns diversos motivos que me fizeram ter preconceito com aquele livro/hq pra somente depois listar as razões pelas quais gostei.

Linkei teu blog tá, curti bastante e dia desses fiquei um tempão vendo TODAS as postagens, hehehe.

Abraço!

Thiago Lacaz disse...

Caro Samir,

Já conhecia o blog e fiquei feliz em ver uma capa minha comentada por aqui, ainda que o título do post tenha me assustado de início. Os comentários anteriores já colocaram a questão do tapete aparecer na história.

Só não vi necessidade em deixar os designers anônimos. Se há pertinência na crítica – e há – ela se torna ferramenta valiosa para discussão e crescimento do nosso campo de trabalho. Sugiro que dê o crédito dos designers dessas capas, como faz nos demais posts do blog.

Abs

Samir Machado disse...

Oi Thiago,

Minha experiência como editor e em lidar com artistas e profissionais em geral me ensinou que nem sempre uma crítica construtiva é interpretada como tal, então sigo a posição de "na dúvida, não ultrapasse" - até porque não me agrada angariar inimizades potenciais pelo mundo (logo se vê que nunca poderia ser crítico literário). Claro que não é o caso na sua capa, que é ótima e uma das melhores desse ano. Mas então, atendendo ao pedido, coloco o nome dos autores creditados das capas (no caso da Ana Maria Braga, só com o livro em mãos pra verificar, então esse fico devendo).

niltonresende disse...

sobre o urso na capa de "solar", há ainda uma coisa: tem-se a impressão de que o urso está derretendo-se. como se o tapete espraiado por trás da cabeça fosse justamente o seu degelo.

Anônimo disse...

Prezado Samir
Acho que deves descer de onde está. Muito alto acredito. Gosto não é referência. Não és referência. A Ana Maria Braga é popular. Pelo menos o POP lê. Os outro dois apresentam questões técnicas de design que estão resolvidas. Por favor, limite-se.

Samir Machado disse...

Oi Anônimo,

Creio ter deixado claro o caráter subjetivo de qualquer avaliação estética já no primeiro parágrafo. A avaliação em relação ao conteúdo segue no mesmo caminho - e desde o principio, deixei claro que não li o livro em questão, e que minha opinião sobre o conteúdo do mesmo seria, basicamente, preconceituosa em relação ao status de celebridade televisiva da autora. Isto por si só já deveria invalidar minha opinião crítica sobre o livro frente a eventuais admiradores da obra literaria dela. Jamais coloquei que meu gosto pessoal e estético deva servir de referência para outros mas, obviamente, ele serve de referência a mim, sem o qual, qualquer tipo de análise seria impossível.

Em relação a aspectos estéticos da capa, há quem leia e aprecie todo tipo de leitura. mas o respeito ao gosto alheio não impede outro de ter senso crítico próprio e externá-lo.

De qualquer forma, seu desejo é uma ordem: como já tinha deixado claro no primeiro parágrafo, não pretendo mais utilizar esse espaço de forma negativa, criticando trabalhos alheios, e é pouco provável que eu volte a fazer posts sobre o tema.

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