quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Azincourt

Design de Marcelo Martinez


Azincourt
Autor: Bernard Cornwell
Designer: Marcelo Martinez, Laboratório Secreto
Editora: Record
Ilustração: Igor Campos e Marcelo Martinez
Fonte: Typographiction
Acabamento: Verniz UV localizado, multiplicando o número de flechas.

Como você se tornou um designer de capas de livros?
O Laboratório Secreto, meu estúdio, também atende clientes de mercados de cultura, moda, publicidade. Mas sempre puxei a brasa para o lado editorial, que sou fascinado. Adoro livros, revistas, gibis, cheiro de papel, gráfica, provas de cor, etc. O objeto livro, aquele retângulo de cerca de 15 x 23 cm, é um suporte fantástico para comunicar ideias. Acho que fiz cerca de 250 capas, até hoje. Não é tanto assim, se comparado a produção de outros designers brasileiros que atuam na área.

O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?
Num projeto de design, é fundamental entender quem é o receptor da sua mensagem. Então temos que saber para quem é aquele livro, quem é o público. Que códigos visuais este tipo de leitor está acostumado, o que pode ser associado ao texto, ao autor. E aonde podemos quebrar as regras, "esticar um pouco a corda", provocar um pouco mais, despertar a curiosidade. Cada capa tem um tom de voz próprio. As vezes, é para gritar, outras vezes, para falar baixinho. Mas todas tem que dizer "ei, me pega, sou um livro legal!" Aí o leitor folheia, e decide (espero) pela compra. Não acredito que uma capa sozinha venda um livro, salvo raras exceções. Mas ela pode ajudar (muito), ou atrapalhar (bastante) a carreira do livro.

Como foi o processo criativo para esta capa? Houve um direcionamento específico que levou ao resultado final? Havia alguma limitação, dificuldade ou desafio específico colocado no briefing? Como fez para superá-lo?
Bernard Cornwell é publicado no Brasil desde 2001, sempre pela Editora Record. Nestes nove anos, foram 21 livros (incluindo o Sharpe mais recente, que estamos terminando), todos com capas nossas. Então, este processo criativo começou lá em 2001, ainda na Porto+Martinez, quando eu e o Bruno propusemos ao Edmundo Barreiros, nosso editor da época, fazer uma capa diferente para "aquele projeto novo daquele tal autor inglês de ficção histórica". O Edmundo foi quem nos chamou para o projeto, quem achou que o trabalho tinha a nossa cara, que o autor valia a aposta. Nos deu total liberdade na criação e bancou todas as ideias malucas que tivemos. Fizemos uma sobre capa em papel prateado com impressão em policromia por cima, além de um verniz tb prateado (que exigiu diversos testes de cor, até chegar no resultado que queríamos). Então, começou assim. Como deu certo, outros títulos foram sendo programados, e nosso desafio passou a ser estabelecer uma linguagem gráfica para o autor, procurando "provocar" os leitores a cada novo título. Se você comparar as capas que fazemos com as originais, verá que a ideia sempre foi fugir daquele esquemão best-seller estrangeiro (titulo e autor enormes, e um capacetinho ou similar no espaço que resta, eheh). Minha ideia era aproximar os livros de graphic novels, utilizando ilustrações menos "enciclopédicas", e mais autorais, impactantes, com composições e enquadramentos mais dinâmicos.


Houve alguma etapa de preparação antes de começar a criar?
Azincourt não é uma série, é um livro isolado (em tese, pois se tratando do Cornwell, sempre existe a possibilidade de rolar uma seqüência...rs). Então, dentro do processo que estabelecemos para os livros do Cornwell, essa capa começa com a definição do que será a mensagem principal, o que a imagem representa, em qual estilo de ilustração seria o ideal para a tarefa. Esboçamos a imagem, fazemos rafes da composição, e só então partimos para contatar o ilustrador que se encaixe no projeto. No caso de Azincourt, a ilustração foi feita internamente, aqui no estúdio, meio a quatro mãos, com o Igor dando a forma final baseado nos meus pitacos.

Você trabalha em colaboração com outra pessoa, tipo ilustrador? Como se dá o processo?
Além da equipe do estúdio, buscamos, sempre que o projeto permita, trabalhar com outros profissionais que enriqueçam o resultado.
Os livros do Cornwell sempre tem ilustrações na capa. A série "Crônicas de Artur" foi ilustrada por um gaúcho, o Kipper; A "Busca do Graal", pelo Daniel Morena. Eu fiz a ilustração de "O condenado". Renato Alarcão faz a série do Sharpe, e o paulista Kako fez as das "Crônicas Saxônicas". Quase sempre, o ilustrador trabalha baseado em rafes nossos, já com a capa leiautada.

Qual a fonte utilizada, o que a levou a escolher essa fonte?
Geralmente adaptamos fontes, desenhandos acentos, ligaduras, redefinindo serifas, etc. Aqueles letterings gótigos de " A busca do Graal" foram desenhados como logotipos independentes, baseados em fontes mais ou menos no estilo. Nos de "Crônicas de Artur" criamos uma fonte de títulos inspirada em uma antiquíssima versão do "Pai nosso" encontrada em um livro. Havia sido escrita no século V, em um dialeto que misturava caracteres romanos com escrita rúnica, e que foi usado para difundir o cristianismo naquela região em que se passa a história do livro. Achamos os caracteres interessantes, e vimos que a partir deles poderíamos girar, espelhar, e fazer um "r", um "e", e assim por diante. Em Azincourt a fonte é uma versão levemente modificada de Typographiction, desenhada nos anos 90 por Matius Grieck para a [T-26].


O que você diria ser o que faz essa capa funcionar, o que faz dela ser o que é?
Acho que fica dentro do escopo das outras. Usa uma paleta de cores um pouco diferente, combinando 'britanicamente' azuis, vermelhos e brancos, eheh. O layout é bem dinâmico, o verniz dá um charme a mais, multiplicando as muitas flechas que estão caindo na capa. Gosto do resultado, minha preocupação era que ficasse bem diferente de "O Arqueiro". E é bacana saber que os leitores estão colocando esta entre suas favoritas.

Alguma coisa a mais que gostaria de acrescentar sobre o processo de criar capa?
Nestes livros do Cornwell, existe uma sintonia entre as idéias. Isabella Leal, editora atual, também participou do processo desde os primeiros livros, conhece bem as séries, e nós dois entendemos que o trabalho é a continuidade daquele raciocínio gráfico, visual, que começou lá atrás. Antes dela, teve o Felipe Harrison, também compreendia e respeitava esta unidade natural. Nunca foi proposto para a gente soluções fáceis, viciadas ou clichês comerciais. Mesmo nos casos como as capas de "O Arqueiro", "O Andarilho" e "O Herege", que trazem títulos verticais (e "menos legíveis"), o que ainda é considerado um pecado mortal, um suicídio comercial em muitos lugares. Repare, não estou dizendo que as capas eram revolucionárias, anarco-experimentais ou coisa assim, eheh. Muito pelo contrário, a idéia não é essa. Capas de livro são peças de comunicação, com objetivos comerciais. Acontece que, muitas vezes, existem vícios do mercado que engessam o projeto – o que não aconteceu. Estas capas não perderam seu apelo de vendas, e o leitor saiu ganhando.

Marcelo Martinez é artista gráfico, nascido no Rio de Janeiro (RJ). Em maio deste ano, foi um dos cinco designers brasileiros convidados pelo Netherlands Photo Museum, de Roterdã, Holanda, para integrar a mostra de artes visuais Brazil Contemporary, que apresentou projetos de design, videografismo e fotografia. Seu portfólio foi incluído no livro Latin American Graphic Design, editado pela Taschen Books. Teve projetos exibidos e premiados em mostras de design, ilustração e animação na Argentina, Bélgica, Brasil, China, França, México e Portugal; e publicaod em revistas como Print Magazine, Supon Books e Rockport Publishers. É membro do conselho-diretor da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil, e professor de direção de arte na Escola de Design da UniverCidade – RJ. Desenvolve projetos pessoais em animação e tipografia, e está à frente do Laboratório Secreto, estúdio de design gráfico e ilustração especializado em projetos para os mercados cultural, editorial e publicitário. Siga no twitter @martinez_m

8 comentários:

Michael disse...

Excelente entrevista Samir.
Adorei saber mais sobre esse processo de criação, não tinha nem idéia de como acontecia.
E parabéns ao Laboratório Secreto, eu adoro todas as capas.
Realmente são melhores do que o "esquemão best-seller estrangeiro".

Gabriel Berta disse...

Muito boa!!
Sempre curtí muito as capas dele!
Como estudante de Design Gráfico gostei muito de ver o processo detalhado de provas e tals...
Parabéns!

Samir Machado disse...

Michael: Sim, as capas deles são excelentes. Para mais adiante, pretendo voltar a falar das capas dos livros do Cornwell.

Gabriel: que bom que gostou. Colocarei mais entrevistas em breve.

Cirilo S. Lemos disse...

A capa de Azincourt é impressionante, uma das mais belas e elegantes que já vi.

Surtur disse...

Eu sou fã de Cornwell, tenho quase todos os livros. Adoro as capas realizadas pelo Laboratório Secreto e gostei muito de saber mais sobre o processo de criação.

Porém, sobre a capa do livro Azincourt eu tenho um comentário a fazer...

O livro conta a história da batalha de Azincourt, onde os ingleses, em minoria, venceram justamente pela vantagem de terem arqueiros.

Mas na capa, há o efeito de uma chuva de flechas VOLTANDO contra o arqueiro. Pode parecer chato, mas para quem conhece a História, essa imagem faz parecer que os arqueiros ingleses atiraram para cima, contra o vento e que estão sendo alvejados por suas próprias flechas.

Talvez se as "flechas" estivessem ao contrário, o efeito estético não ficaria tão bom. Mas que ficou esquisito, ficou.

Samir Machado disse...

Surtur: bem colocada tua observação, a mesma coisa me ocorreu quando vi a capa, mas acho que a intenção que prevalece ali é a de que os ingleses estavam em minoria contra um inimigo muito maior. A capa passa a idéia de soldados enfrentando uma ameaça enorme - o que, pode-se dizer, é históricamente correto. Mas como até Shakespeare tomou liberdades poéticas na hora de contar os números de cada lado, acho que a mudança de direção das flechas pra reforçar essa idéia é bem válida (e até chegar lá, ela já cumpriu a função de nos fazer pegar o livro e folhear, que é o objetivo principal de toda capa).

Surtur disse...

Realmente você tem razão, Samir. A ideia que se quer passar é a de que eles estão numa enrascada. rs

Mas o que eu quis enfatizar é que só existiam arqueiros do lado dos ingleses. Por isso é difícil admitir as flechas contra eles.

Como se sabe, os franceses só possuiam os besteiros genoveses. E nem sei se nessa batalha havia algum, talvez sim. Não consegui achar nada nos livros. Só são citadas infantaria e cavalaria francesas tomando flecha adoidado.

Se besteiros estivessem presentes em Azincourt, o criador dessa capa até poderia ter colocado setas de besta indo na direção do arqueiro, ao invés das flechas.
É lógico que não daria uma "chuva" dessas devido ao fato de bestas serem disparadas para a frente, mas se encaixaria no contexto histórico.

Mas é claro que, como você disse, isso não tem nada a ver, pois a capa é realmente linda. E estou louco pra comprar esse livro. hehe

Anônimo disse...

Conheci Cornwell exatamente por causa da capa de 'O Arqueiro'. Sempre fui apaixonado por arcos e histórias de arqueiros, em especial os arqueiros britânicos e seus arcos longos de batalha.
Talvez se não fosse por essas capas não teria notado ou não teria me interessado em pesquisar e conhecer os livros e o autor.

Fábio!?

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