quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Coleção Mochileiro das Galáxias

Chegou um momento que eu temia - alguma hora, eu teria que falar mal de uma capa. Sério, não gosto de ficar criticando trabalho alheio - em algum lugar, alguém fez o que fez na melhor das boas intençoes, ou o melhor que o orçamento e o prazo do cliente permitiam. Ou não, nunca se sabe.
Mas alguém me explique, por favor, o sentido dessa "estética WordArt" das novas capas da coleção Guia do Mochileiro das Galáxias, que a editora Sextante está relançando? Note-se que se tratam de edições comemorativas dos 30 anos de publicação da 1a. edição dos livros.
Vou comemorar comprando as edições com as capas antigas antes que desapareçam.
Clique para ampliar por sua conta e risco.





Alguém vai argumentar que a Sextante não é uma editora que se diferencia por ter capas particularmente bonitas, mas vale lembrar que as edições antigas do Guia tinham capas bem bacanas, feitas por Marcelo Martinez (já falamos do trabalho dele antes aqui). Exceto pelo primeiro livro, que logo depois do lançamento do filme passou a ter como capa o cartaz do mesmo (há quem odeie de morte essa prática, mas já ouvi escritor que teve livro adaptado pro cinema reconhecendo que isso aumentou significativamente as vendas do livro, então culpe, antes de tudo, o leitor), todos os demais, creio, ainda estão em tempo de serem encontrados nas prateleiras, com as capas antigas.
Que, a título de comparação, coloco abaixo:


Então, alguém compare e me diga se eu acordei no planeta Bizarro, ou se o senso estético foi mesmo defenestrado.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Desacordo Ortográfico

Design de Fernando Schlickmann



Desacordo Ortográfico
Autor: Reginaldo Pujol Filho (organizador)
Designer: Fernando Schlickmann e Fabrício Pretto (3D)
Editora: Não Editora
Acabamento: capa dura com prolan fosco

O próximo lançamento da Não Editora, que será lançado dia 13 de novembro, é uma coletânea de autores de diversos países lusófonos, incluindo autores de todo o Brasil (Luis Fernando Veríssimo, Cardoso, Altair Martins, Marcelino Freire, Xico Sá, Maria Valéria Resende, Manoel de Barros e o próprio Reginaldo Pujol Filho) e também Portugal (Patrícia Reis, Luís Filipe Cristóvão, Patrícia Portela, Rita Taborda Duarte, João Pedro Messeder, Gonçalo Tavares), Angola (Luandino Vieira, Pepetela, Ondjaki), São Tomé e Príncipe (Olinda Beja), Moçambique (Rogério Manjate, Nelson Saúte). O projeto do livro vem sendo descrito num blog de making-of, onde os autores lêem trechos uns dos outros. Abaixo, uma rápida entrevista com o capista Fernando Schlickman, diretor de arte na agência Escala.

Como foi o processo criativo para essa capa? Houve algum direcionamento específico? Quais as limitações ou desafios do trabalho?
Como o Reginaldo é meu grande parceiro aqui na Escala (agência de propaganda onde trabalho), eu já vinha acompanhando o projeto do livro fazia um tempo. Um livro que mostra a riqueza da língua portuguesa em suas diferenças. Então, quando ele me convidou pra fazer a capa, já tinha na cabeça o conceito do trabalho, sabia que a capa deveria passar pluralidade, diversidade. O briefing era bem claro pra mim. Mas como sou um "estreante" em capas de livros (essa foi a primeira que fiz), o Reginaldo ainda me trouxe algumas referências, do que ele imaginava que podia passar o sentido que desejávamos. Daí foi mãos-à-obra mesmo. Bastante trabalho até chegar na fonteescolhida, testando linguagens e criando em conjunto com o Reginaldo mesmo, com o Fabrício Pretto (que também é nosso colega de Escala e mestre em 3D) e trocando algumas informações com pessoal da editora. A capa do livro acabou sendo uma evolução de umas das primeiras opções que criamos, só que com mais impacto, mais beleza. E pra mim a grande limitação e desafio ao mesmo tempo era a produção dela. Aqui na agência, a gente cria a peça e um fornecedor produz ela, com nosso acompanhamento. Já no caso da capa do Desacordo Ortográfico, a produção seria tudo com a gente mesmo. Isso dificultou, mas como o Pretto tá mandando muito bem no 3D, acho que o resultado acabou chegando no que a gente queria.


Quais os softwares que utilizaste pra criar a capa, o que motivou a escolha de múltiplas fontes, e porquê escolheu aquelas fontes?
Os softwares que utilizamos foram o Illustrator, o 3DMax e o Photoshop.
Quanto à escolha de várias fontes pra capa, isso foi pra passar a diversidade que o projeto do livro traz. Cada autor tem o seu jeito de escrever português. Um escreve em português de Portugal, outro de Ângola, outro do Brasil. Achamos que cada nome deveria ter então uma fonte, um jeito. Isso podia ser um "resumo visual" do livro. Buscamos então fontes que compusessem bem a capa, mas tomando o cuidado de não colocar uma fonte que identificasse um país fora do projeto, como, por exemplo, fontes alemãs, russas, árabes.

O que você acreidta que faz essa capa funcionar, ser o diferencial dela?
Na minha opinião é uma capa que tem impacto. Esse é o grande diferencial dela. Sai um pouco do que estamos acostumados a ver nas livrarias. E não é um impacto gratuíto, ela consegue ser visualmente interessante e ainda contar sobre o livro. Acho que isso seja um pouco de influência da propaganda.

Fernando Schlickmann tem 29 anos. Nasceu em Campo Bom e atualmente mora em Porto Alegre. Trabalha como diretor de arte na Escala desde 2000. É estreiante em capas de livro. Para falar com ele, manda um e-mail: f_schlickmann@hotmail.com.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Z - A Cidade Perdida

Design de Christiano Menezes



Z - A Cidade Perdida
Autor: David Grann
Designer: Cristiano Menezes
Editora: Companhia das Letras
Fonte: Steak e Rockwell
Acabamento: verniz UV sobre imagem da letra Z e insetos ao redor

A capa de Z-A Cidade Perdida, me chamou a atenção direto na prateleira. O livro do jornalista David Grann reconstitui as expedições do coronel Fawcett pela Amazônia em busca do El Dorado. A primeira coisa que me ocorreu é que parece uma capa atípica pra Cia. das Letras, que geralmente usa soluções mais sóbrias, e mais próxima do estilo de capas da Record, que geralmente usa soluções mais dramáticas como se remetessem à cartazes de cinema (curiosamente, o livro estava ao lado de O Jardim de Darwin, publicado pela Record, e que tem, justamente, uma capa mais sóbria, ao estilo da Cia. das Letras). A primeira vista, os detalhes da capa de Z-A Cidade Perdida me remeteram ao cartaz de O Mundo Perdido, do Spielberg, em que o elemento central está envolto por uma moldura de plantas que escondem pequenas "ameaças" nos detalhes (na forma de pequenos insetos). Até segurei o impulso de comprar o livro na hora - que geralmente me ocorre quando conteúdo e capa batem totalmente com meus gostos pessoais - mas não me contive e acabei comprando no dia seguinte. Abaixo, segue a entrevista com o designer Christiano Menezes, do estúdio Retina_78, responsável pela capa do livro.


Como você se tornou um designer de capas de livros?
Eu sempre gostei muito de ler. Muito mesmo. E na minha opinião, para se envolver e criar a capa de um livro, antes de tudo,
você tem que ser um leitor. Sinto que meu trabalho sempre esteve mais ligado as palavras do que das imagens. Gosto desse ponto de partida.

O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?
Acho que é criar uma atração quase irresistível para descobrir o conteúdo. Penso em quem compraria aquele livro e também em quem não compraria. (rs)
Gerar um interesse, uma curiosidade. Não excluir. E acima de tudo, respeitar o texto. Respeitar e surpreender ao mesmo tempo. Sem induzir uma estética.
Talvez dando um elemento, uma semente para a pessoa viajar no clima da história.

Como foi o processo criativo para esta capa? Houve um direcionamento específico que levou ao resultado final?
Havia alguma limitação, dificuldade ou desafio específico colocado no briefing? Como fez para superá-lo?
Normalmente tem um direcionamento e uma limitação, mas isso não me incomoda. As limitações fazem você buscar novos caminhos. Enquanto estava ao telefone ouvindo o briefing, já estava rabiscando e visualizando a idéia.


Houve alguma etapa de preparação antes de começar a criar?
A etapa de preparação foi um pouco complexa e trabalhosa. Mas muito interessante também. A gente acaba até aprendendo um pouco sobre botânica. (rs). Quis pesquisar a vegetação nativa de onde se passa a história e levou um tempo para coletar esse material. Fotografei muita coisa também e o processo de construção da imagem foi elaborado. A imagem é bastante detalhada e cheia de camadas.

Você trabalha em colaboração com outra pessoa, tipo ilustrador? Como se dá o processo?
Nesse caso não. Gosto de construir as imagens. E ilustrar também. Ilustrar é quase meu primeiro idioma.
Gosto de trocar e agregar. Trabalho com fotógrafos, designers e ilustradores também, mas o processo das capas, geralmente é bem solitário.

Qual a fonte utilizada, o que o levou a escolher essa fonte?
Usei a “steak” para a construção do Z e a “rockwell”. Queria fontes encorpadas e com uma certa personalidade.

O que você diria ser o que faz essa capa funcionar, o que faz dela ser o que é?
Acho que ela tem um tom de mistério e aventura... E um certo sufocamento que traduz a sensação principal do livro.

Alguma coisa a mais que gostaria de acrescentar sobre o processo de criar capa?
Soa um pouco estranho pra mim “criar capas”. Associo com “criar galinhas” ou outra coisa parecida. (rs) Eu me sinto muito mais nesse caso, um “tradutor visual”. E eu sempre leio o livro para “traduzir” a capa da melhor maneira. Sempre. Mesmo que não me agrade, leio a maior parte para compreender a atmosfera. Na verdade, eu quero que o trabalho se destaque nas livrarias, mas não quero que o meu trabalho prevaleça sobre o texto.
Acho que isso é respeito. Respeito e carinho pelas letras.

Christiano Menezes é designer, ilustrador e fotógrafo. Um dos sócios do estúdio de design Retina 78, fez capas de livros para diversas editoras, como Companhia das Letras, Ediouro e Agir, e projetos gráficos de capas de CDS e dvds. Entre seus trabalhos, estão as capas dos livros Até o dia em que o cão morreu e Cordilheira, de Daniel Galera, O Almoço Nu, de William Burroughs e os livros de Stieg Larson, bem como o cd dos Detonautas, a coleção Ecopac, e dvds e materiais promocionais da minissérie Capitu. Fez também editoriais para revistas como a Vogue, Trip, S/N, e direção de arte para o canal Multishow.

Palestra

Leitores cariocas: o Marcelo Martinez, designer das capas dos livros do Bernard Cornwell no Brasil (sobre o qual falei nesse post aqui), estará amanhã falando, justamente, sobre as capas dos livros do Cornwell, feitas para a editora Record. Se eu estivese no Rio de Janeiro, não perderia por nada.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O papel afetivo do papel

Essa semana, o jornal CineSemana, distribuído na rede de cinemas GNC (baixe o PDF aqui), publicou artigo meu sobre e-books, versão resumida de um texto que já havia sido publicado no segundo número da Cadernos de Não-Ficção com o título de Sou um ludita - ou, como detestar livros virtuais sem ter um único motivo racional para isso. Ao contrário do que o título sugere, eu não sou contra e-readers, só acho que o livro não vai desaparecer por causa disso.

Se hay e-readers, soy contra
Minhas experiências de leitura sempre foram bastante internas. Minhas lembranças de um livro são complementadas por memórias de onde eu estava, emocionalmente, enquanto o lia, e onde fui parar depois. E também por aspectos como a forma, o peso e o cheiro do papel utilizado naquela edição, assim como pelo próprio design do livro enquanto objeto, elementos que formam uma imagem simbólica daquela leitura na minha cabeça. Reparação, de Ian McEwan, me fez passar um sábado inteiro colado ao sofá, quase doze horas de leitura ininterrupta, acompanhado de um calhamaço de 448 páginas impressas em papel pólen soft macio, fino e agradável de folhear, sentindo a evolução da leitura conforme ia aumentando o número de páginas à esquerda do marcador, e diminuindo as da direita. Foi uma leitura que me impactou tanto, que passei quase um mês sem conseguir ler outra coisa. Da mesma forma que Harry Potter and the Deadly Hollows1 me deixou acordado até as duas horas da madrugada, ansioso para saber logo o final da história, segurando um livro mais grosso que um tijolo de seis furos, mas incrivelmente leve, graças a um papel ultramacio, leve e volumoso, encadernado com uma capa dura que não só acrescenta firmeza ao volume, como ajudava a dar impacto e imponência a uma leitura que chegava a mim como um grande blockbuster de verão. Ou seja, meu único argumento para preferir livros impressos, é o meu apego emocional por papel.

Por tudo isso, um aparelho leitor de e-books não soa atrativo para um bibliófilo ou colecionador. Da mesma forma que um cinéfilo não vai deixar de ver um filme muito aguardado no cinema (afinal, o filme foi pensado para esse formato); porque assim como a mítica em torno da sala de cinema e da projeção complementam a experiência sensorial de se ver um filme, acredito que o papel e a forma do livro como tal contribuem para a experiência de leitura, e não faltariam exemplos de autores que usam recursos de tipografia ou de design como parte da sua narrativa, praticamente impossíveis de serem reproduzidos por outro meio. Da mesma forma, não excluo a possibilidade de que um bom escritor incorpore a própria natureza do Kindle como parte de sua narrativa. Uma coisa não elimina a outra. Outro exemplo: colecionadores e conhecedores de música argumentam que a compressão digital dos arquivos elimina certas camadas de ondas sonoras que faziam parte da música gravada, e forçam, aos poucos, o retorno do disco de vinil ao mercado.

Da mesma forma, entre aqueles que têm a literatura como algo que ocupa um espaço importante nas suas vidas, e dão a ela o tempo que julgam necessário para desfrutar de um livro, continuarão existindo aqueles que saberão valorizar todas as percepções sensoriais que o próprio livro, como objeto, pode trazer. Talvez seja um apego à imagem romantizada e idealizada da figura do leitor, isolado em seu momento de leitura, com um livro em mãos e uma xícara de qualquer coisa ao lado, enfim, o tipo de coisa que faz com que eu me sinta um neoludita. Não que eu pretenda atacar usuários do Kindle no meio da rua, mas a tecnologia parece cada vez mais facilitar tanto a nossa vida, que esquecemos que as pequenas dificuldades inerentes a cada processo fazem parte da experiência que ele proporciona.

Pra finalizar, com a opinião de alguém muito mais gabaritado do que eu pra falar sobre o assunto, uma recente entrevista do designer Chip Kidd sobre o assunto. Ironicamente, ele também faz referências aos luditas.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Moby Dick

Design de Luciana Facchini


Moby Dick
Autor: Herman Melville
Designer: Luciana Facchini
Editora: Cosac & Naify
Ilustração: detalhe de gravura de Barry Moser
Fonte: Gotham
Acabamento: capa dura em serigrafia, com verniz UV sobre traço da ilustração

Ganhadora do Jabuti deste ano na categoria melhor capa, a nova edição de Moby Dick, lançada ano passado pela Cosac & Naify, buscou afastar a leitura frequente da obra como literatura infanto-juvenil e dar-lhe, visualmente, todo o peso colossal que o livro tem para a literatura de língua inglesa. A edição, que além do texto integral traz também um mapa de viagens do Pequos, ilutrações técnicas do navio e dos botes baleeiros, uma extensa fortuna crítica e bibliográfica, e detalhes de ilustrações originais de 1874 (como pode ser visto na imagem abaixo, da folha de rosto do livro). Um detalhe interessante na diagramação do miolo do livro é a opção de alinhamento da mancha, que faz o texto "flutuar" e ajustar-se à pagina como àgua - elemento-chave no design do livro como um todo, conforme a própria Luciana explica na entrevista que segue:

Como você se tornou uma designer de capas de livros?
Sempre gostei muito de ler e também de desenhar, desde criança foram dois grandes prazeres.
Quando tive que decidir a profissão, escolhi arquitetura na USP por conter em seu currículo uma formação ampla nas áreas visuais (arquitetura, paisagismo, programação visual, desenho industrial, planejamento urbano, etc.), naquela época não havia faculdade de Design como hoje em dia. A FAU também fornece uma boa base em projeto.


O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?
Acredito que uma boa interpretação do conteúdo do livro, mas não só, muitos fatores podem gerar boas capas.

Como foi o processo criativo para esta capa? Houve um direcionamento específico que levou ao resultado final? Havia alguma limitação, dificuldade ou desafio específico colocado no briefing? Como fez para superá-lo?
O Moby Dick foi muito discutido em reuniões de conceitualização do projeto.
Na editora Cosac Naify sempre pensamos o livro inteiro, isto é, o formato que melhor traduz o conteúdo, o papel, a fonte, a mancha de texto, se vamos ilustrá-lo ou não, etc. A idéia de não explorar a imagem da baleia veio nas primeiras reuniões. Existem muitas edições de Moby Dick nas quais a imagem da baleia foi exaustivamente explorada. Além disso, como é um volume com o texto integral [em muitas edições o texto é cortado, contendo apenas o percurso do baleeiro Pequod durante a vingança do Capitão Ahab], não queríamos ilustrá-lo para não parecer juvenil.
O projeto gráfico do miolo, sugere o movimento das marés: a cada capítulo a mancha foi fixada na margem inferior e, por isso, a margem das aberturas (sempre em dupla) de cada capítulo variam, dando movimento ao livro (abaixo, imagem do miolo).

Na capa eu usei fragmento de uma gravura do Barry Moser (imagem abaixo), um consagrado e notável ilustrador de Moby Dick. Dentro dessa dramática onda, inseri o título, que foi composto em uma fonte bastante arredondada e corpulenta (fonte Gotham), que faz o papel de baleia. O título sendo “engolido” pela onda é uma alusão ao desfecho da história.


Houve alguma etapa de preparação antes de começar a criar?
Sim, muitas discussões e pesquisas, por parte de todos que estavam envolvidos: editor, diretor geral, produção gráfica, produtor de imagem, equipe de design.

Qual a fonte utilizada, o que a levou a escolher essa fonte?
A fonte utilizada foi a Gotham, de Tobias Frere-Jones, por ser bastante arredondada e corpulenta, muito bem desenhada e com ótima leitura.

O que você acredita que faz essa capa funcionar, que faz ser o que é?
A imagem do mar cobrindo/engolindo o título. É o que lhe dá dramaticidade.
Luciana Facchini é designer gráfica, formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em 2000. Trabalha na editora Cosac Naify desde 2004. Na editora desenhou livros como Moby Dick, de Herman Melville, Experiência neoconcreta, de Ferreira Gullar, Geraldo de Barros: sobras mais fotoformas, A fera na selva de Henry James, Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela, http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/11029/Bili-com-lim%C3%A3o-verde-na-m%C3%A3o.aspx, de Décio Pignatari, Conto para crianças impossíveis, de Jacques Prevêrt, além de coleções como Mulheres Modernistas e coleção Paulo Emílio. Desde 2007 coordena a parte de criação gráfica da área infanto-juvenil. Teve trabalhos expostos na 7a, 8a e 9a Bienais de Design Gráfico da Associação de Designers Gráficos do Brasil. Ganhou prêmios pelos livros Lampião e Lancelote (3º lugar em capa - 49º Prêmio Jabuti, 2007) e Fera na selva (2º lugar em projeto gráfico – 50º Prêmio Jabuti, 2008) e em 2009, primeiro lugar em projeto de capa pelo livro Moby Dick (51º Prêmio Jabuti, 2009). Em 2008, o livro Experiência Neoconcreta foi selecionado pelo American Institute of Graphic Arts para a exposição 50 Books/50 Covers of 2007, em Nova York. Ganhou o Prêmio TIM (2008) pelo projeto gráfico do CD “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” do artista Siba.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Azincourt

Design de Marcelo Martinez


Azincourt
Autor: Bernard Cornwell
Designer: Marcelo Martinez, Laboratório Secreto
Editora: Record
Ilustração: Igor Campos e Marcelo Martinez
Fonte: Typographiction
Acabamento: Verniz UV localizado, multiplicando o número de flechas.

Como você se tornou um designer de capas de livros?
O Laboratório Secreto, meu estúdio, também atende clientes de mercados de cultura, moda, publicidade. Mas sempre puxei a brasa para o lado editorial, que sou fascinado. Adoro livros, revistas, gibis, cheiro de papel, gráfica, provas de cor, etc. O objeto livro, aquele retângulo de cerca de 15 x 23 cm, é um suporte fantástico para comunicar ideias. Acho que fiz cerca de 250 capas, até hoje. Não é tanto assim, se comparado a produção de outros designers brasileiros que atuam na área.

O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?
Num projeto de design, é fundamental entender quem é o receptor da sua mensagem. Então temos que saber para quem é aquele livro, quem é o público. Que códigos visuais este tipo de leitor está acostumado, o que pode ser associado ao texto, ao autor. E aonde podemos quebrar as regras, "esticar um pouco a corda", provocar um pouco mais, despertar a curiosidade. Cada capa tem um tom de voz próprio. As vezes, é para gritar, outras vezes, para falar baixinho. Mas todas tem que dizer "ei, me pega, sou um livro legal!" Aí o leitor folheia, e decide (espero) pela compra. Não acredito que uma capa sozinha venda um livro, salvo raras exceções. Mas ela pode ajudar (muito), ou atrapalhar (bastante) a carreira do livro.

Como foi o processo criativo para esta capa? Houve um direcionamento específico que levou ao resultado final? Havia alguma limitação, dificuldade ou desafio específico colocado no briefing? Como fez para superá-lo?
Bernard Cornwell é publicado no Brasil desde 2001, sempre pela Editora Record. Nestes nove anos, foram 21 livros (incluindo o Sharpe mais recente, que estamos terminando), todos com capas nossas. Então, este processo criativo começou lá em 2001, ainda na Porto+Martinez, quando eu e o Bruno propusemos ao Edmundo Barreiros, nosso editor da época, fazer uma capa diferente para "aquele projeto novo daquele tal autor inglês de ficção histórica". O Edmundo foi quem nos chamou para o projeto, quem achou que o trabalho tinha a nossa cara, que o autor valia a aposta. Nos deu total liberdade na criação e bancou todas as ideias malucas que tivemos. Fizemos uma sobre capa em papel prateado com impressão em policromia por cima, além de um verniz tb prateado (que exigiu diversos testes de cor, até chegar no resultado que queríamos). Então, começou assim. Como deu certo, outros títulos foram sendo programados, e nosso desafio passou a ser estabelecer uma linguagem gráfica para o autor, procurando "provocar" os leitores a cada novo título. Se você comparar as capas que fazemos com as originais, verá que a ideia sempre foi fugir daquele esquemão best-seller estrangeiro (titulo e autor enormes, e um capacetinho ou similar no espaço que resta, eheh). Minha ideia era aproximar os livros de graphic novels, utilizando ilustrações menos "enciclopédicas", e mais autorais, impactantes, com composições e enquadramentos mais dinâmicos.


Houve alguma etapa de preparação antes de começar a criar?
Azincourt não é uma série, é um livro isolado (em tese, pois se tratando do Cornwell, sempre existe a possibilidade de rolar uma seqüência...rs). Então, dentro do processo que estabelecemos para os livros do Cornwell, essa capa começa com a definição do que será a mensagem principal, o que a imagem representa, em qual estilo de ilustração seria o ideal para a tarefa. Esboçamos a imagem, fazemos rafes da composição, e só então partimos para contatar o ilustrador que se encaixe no projeto. No caso de Azincourt, a ilustração foi feita internamente, aqui no estúdio, meio a quatro mãos, com o Igor dando a forma final baseado nos meus pitacos.

Você trabalha em colaboração com outra pessoa, tipo ilustrador? Como se dá o processo?
Além da equipe do estúdio, buscamos, sempre que o projeto permita, trabalhar com outros profissionais que enriqueçam o resultado.
Os livros do Cornwell sempre tem ilustrações na capa. A série "Crônicas de Artur" foi ilustrada por um gaúcho, o Kipper; A "Busca do Graal", pelo Daniel Morena. Eu fiz a ilustração de "O condenado". Renato Alarcão faz a série do Sharpe, e o paulista Kako fez as das "Crônicas Saxônicas". Quase sempre, o ilustrador trabalha baseado em rafes nossos, já com a capa leiautada.

Qual a fonte utilizada, o que a levou a escolher essa fonte?
Geralmente adaptamos fontes, desenhandos acentos, ligaduras, redefinindo serifas, etc. Aqueles letterings gótigos de " A busca do Graal" foram desenhados como logotipos independentes, baseados em fontes mais ou menos no estilo. Nos de "Crônicas de Artur" criamos uma fonte de títulos inspirada em uma antiquíssima versão do "Pai nosso" encontrada em um livro. Havia sido escrita no século V, em um dialeto que misturava caracteres romanos com escrita rúnica, e que foi usado para difundir o cristianismo naquela região em que se passa a história do livro. Achamos os caracteres interessantes, e vimos que a partir deles poderíamos girar, espelhar, e fazer um "r", um "e", e assim por diante. Em Azincourt a fonte é uma versão levemente modificada de Typographiction, desenhada nos anos 90 por Matius Grieck para a [T-26].


O que você diria ser o que faz essa capa funcionar, o que faz dela ser o que é?
Acho que fica dentro do escopo das outras. Usa uma paleta de cores um pouco diferente, combinando 'britanicamente' azuis, vermelhos e brancos, eheh. O layout é bem dinâmico, o verniz dá um charme a mais, multiplicando as muitas flechas que estão caindo na capa. Gosto do resultado, minha preocupação era que ficasse bem diferente de "O Arqueiro". E é bacana saber que os leitores estão colocando esta entre suas favoritas.

Alguma coisa a mais que gostaria de acrescentar sobre o processo de criar capa?
Nestes livros do Cornwell, existe uma sintonia entre as idéias. Isabella Leal, editora atual, também participou do processo desde os primeiros livros, conhece bem as séries, e nós dois entendemos que o trabalho é a continuidade daquele raciocínio gráfico, visual, que começou lá atrás. Antes dela, teve o Felipe Harrison, também compreendia e respeitava esta unidade natural. Nunca foi proposto para a gente soluções fáceis, viciadas ou clichês comerciais. Mesmo nos casos como as capas de "O Arqueiro", "O Andarilho" e "O Herege", que trazem títulos verticais (e "menos legíveis"), o que ainda é considerado um pecado mortal, um suicídio comercial em muitos lugares. Repare, não estou dizendo que as capas eram revolucionárias, anarco-experimentais ou coisa assim, eheh. Muito pelo contrário, a idéia não é essa. Capas de livro são peças de comunicação, com objetivos comerciais. Acontece que, muitas vezes, existem vícios do mercado que engessam o projeto – o que não aconteceu. Estas capas não perderam seu apelo de vendas, e o leitor saiu ganhando.

Marcelo Martinez é artista gráfico, nascido no Rio de Janeiro (RJ). Em maio deste ano, foi um dos cinco designers brasileiros convidados pelo Netherlands Photo Museum, de Roterdã, Holanda, para integrar a mostra de artes visuais Brazil Contemporary, que apresentou projetos de design, videografismo e fotografia. Seu portfólio foi incluído no livro Latin American Graphic Design, editado pela Taschen Books. Teve projetos exibidos e premiados em mostras de design, ilustração e animação na Argentina, Bélgica, Brasil, China, França, México e Portugal; e publicaod em revistas como Print Magazine, Supon Books e Rockport Publishers. É membro do conselho-diretor da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil, e professor de direção de arte na Escola de Design da UniverCidade – RJ. Desenvolve projetos pessoais em animação e tipografia, e está à frente do Laboratório Secreto, estúdio de design gráfico e ilustração especializado em projetos para os mercados cultural, editorial e publicitário. Siga no twitter @martinez_m

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Penguin Clothbound Classics – Série 2

Design de Coralie Bickford-Smith

Ratos de livraria já devem ter percebido (ao menos, na Livraria Cultura) uma luxuosa coleção da Penguin Books de clássicos encadernados em capa dura, com capas de tecido. A coleção, cuja primeira leva incluía Flaubert (Madame Bovary), Charles Dickens (Grandes Esperanças), Austen (Orgulho & Preconceito, Razão & Sensibilidade), Oscar Wilde (Retrato de Dorian Gray) e Dostoievski (Crime e Castigo), entre outros, foi criada para ser vendida exclusivamente na rede de livrarias inglesa Waterstone. Felizmente não tão exclusivamente assim – comprei Orgulho e Preconceito (imagem à esquerda), meio de impulso mas não me arrependo, na Cultura de Porto Alegre no começo do ano.



Agora há uma segunda leva (e espero ver ela logo nas prateleiras por aqui). Também criada pela designer inglesa Coralie Bickford-Smith (que fez o design da coleção Boy’s Adventures e Sherlock Holmes para a Penguin), é delírio estético pra bibliófilo nenhum botar defeito: o estilo de Bickford-Smith, sempre privilegiando paletas de duas cores e padronagens tipográficas, dá todo um ar de livrão clássico, como se tivesse sido produzido manualmente numa prensa tipográfica a cem anos atrás. A encadernação é com tecido, cada capa repete um padrão que se identifica com o conteúdo: as ondas na Odisséia, os papagaios na Ilha do Tesouro. E tem uma fitinha de marca-página (com a cor combinando com o livro, claro – são essas pequenas frescuras que fazem a diferença num projeto assim).


Essa nova fornada de livros inclui Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, Oliver Twist (Dickens), O Cão dos Baskervilles (Conan Doyle), Emma (Jane Austen), A Odisséia (Homero), A Ilha do Tesouro (Stevenson), A Mulher de Branco (Wilkie Collins), Sonetos e Uma queixa de um amante (Shakespeare), O Amante de Lady Chatterley (D.H. Lawrence) e Mulherzinhas (Louise May Alcott).

Post inaugural

Esse novo blog surgiu da vontade de ter um espaço pra comentar sobre design de livros e capas. Quem me conhece, sabe que essa tem sido uma paixão pessoal e profissional desde o meu primeiro dia de carreira, como estagiário na Agência Experimental da PUCRS, fazendo capas para a editora da universidade, até o momento em que, junto com outros cinco amigos, demos início numa editora própria e independente, a Não Editora, onde volta e meia desenvolvo a capa de alguns dos lançamentos.

Pretendo atualizar esse blog com mais frequência do que atualizo meu blog pessoal, de preferência de dois em dois dias. Vamos ver como as coisas se saem. Pra começar, semana passada foi lançado o novo livro de ensaios de um dos meus autores favoritos, Michael Chabon, com o ótimo título de Manhood for Amateurs: The Pleasures and Regrets of a Husband, Father, and Son. O design é de Will Staehle (willstaehle.com), do estúdio Lone Wolf/Black Sheep, para a Harper Collins. Staehle já havia feito a capa do livro anterior de Chabon, The Yiddish Policeman Union. Sabe-se lá se um dia será publicado no Brasil (livro de ensaios por livro de ensaios, antes desse Chabon lançou também o excelente Maps & Legends, pela McSweeney`s).



Atualizando: total falta minha: o pai da idéia desse blog foi o Guilherme Smee, que eventualmente, aparecerá por aqui como colaborador, comentando capas de quadrinhos.

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