Design de Luciana Facchini
Moby Dick
Autor: Herman Melville
Designer: Luciana Facchini
Editora: Cosac & Naify
Ilustração: detalhe de gravura de Barry Moser
Fonte: Gotham
Acabamento: capa dura em serigrafia, com verniz UV sobre traço da ilustração
Ganhadora do Jabuti deste ano na categoria melhor capa, a nova edição de Moby Dick, lançada ano passado pela Cosac & Naify, buscou afastar a leitura frequente da obra como literatura infanto-juvenil e dar-lhe, visualmente, todo o peso colossal que o livro tem para a literatura de língua inglesa. A edição, que além do texto integral traz também um mapa de viagens do Pequos, ilutrações técnicas do navio e dos botes baleeiros, uma extensa fortuna crítica e bibliográfica, e detalhes de ilustrações originais de 1874 (como pode ser visto na imagem abaixo, da folha de rosto do livro). Um detalhe interessante na diagramação do miolo do livro é a opção de alinhamento da mancha, que faz o texto "flutuar" e ajustar-se à pagina como àgua - elemento-chave no design do livro como um todo, conforme a própria Luciana explica na entrevista que segue:
Como você se tornou uma designer de capas de livros?
Sempre gostei muito de ler e também de desenhar, desde criança foram dois grandes prazeres.
Quando tive que decidir a profissão, escolhi arquitetura na USP por conter em seu currículo uma formação ampla nas áreas visuais (arquitetura, paisagismo, programação visual, desenho industrial, planejamento urbano, etc.), naquela época não havia faculdade de Design como hoje em dia. A FAU também fornece uma boa base em projeto.
O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?
Acredito que uma boa interpretação do conteúdo do livro, mas não só, muitos fatores podem gerar boas capas.
Como foi o processo criativo para esta capa? Houve um direcionamento específico que levou ao resultado final? Havia alguma limitação, dificuldade ou desafio específico colocado no briefing? Como fez para superá-lo?
O Moby Dick foi muito discutido em reuniões de conceitualização do projeto.
Na editora Cosac Naify sempre pensamos o livro inteiro, isto é, o formato que melhor traduz o conteúdo, o papel, a fonte, a mancha de texto, se vamos ilustrá-lo ou não, etc. A idéia de não explorar a imagem da baleia veio nas primeiras reuniões. Existem muitas edições de Moby Dick nas quais a imagem da baleia foi exaustivamente explorada. Além disso, como é um volume com o texto integral [em muitas edições o texto é cortado, contendo apenas o percurso do baleeiro Pequod durante a vingança do Capitão Ahab], não queríamos ilustrá-lo para não parecer juvenil.
O projeto gráfico do miolo, sugere o movimento das marés: a cada capítulo a mancha foi fixada na margem inferior e, por isso, a margem das aberturas (sempre em dupla) de cada capítulo variam, dando movimento ao livro (abaixo, imagem do miolo).
Na capa eu usei fragmento de uma gravura do Barry Moser (imagem abaixo), um consagrado e notável ilustrador de Moby Dick. Dentro dessa dramática onda, inseri o título, que foi composto em uma fonte bastante arredondada e corpulenta (fonte Gotham), que faz o papel de baleia. O título sendo “engolido” pela onda é uma alusão ao desfecho da história.
Houve alguma etapa de preparação antes de começar a criar?
Sim, muitas discussões e pesquisas, por parte de todos que estavam envolvidos: editor, diretor geral, produção gráfica, produtor de imagem, equipe de design.
Qual a fonte utilizada, o que a levou a escolher essa fonte?
A fonte utilizada foi a Gotham, de Tobias Frere-Jones, por ser bastante arredondada e corpulenta, muito bem desenhada e com ótima leitura.
O que você acredita que faz essa capa funcionar, que faz ser o que é?
A imagem do mar cobrindo/engolindo o título. É o que lhe dá dramaticidade.
Luciana Facchini é designer gráfica, formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em 2000. Trabalha na editora Cosac Naify desde 2004. Na editora desenhou livros como Moby Dick, de Herman Melville, Experiência neoconcreta, de Ferreira Gullar, Geraldo de Barros: sobras mais fotoformas, A fera na selva de Henry James, Lampião e Lancelote, de Fernando Vilela, http://editora.cosacnaify.com.br/ObraSinopse/11029/Bili-com-lim%C3%A3o-verde-na-m%C3%A3o.aspx, de Décio Pignatari, Conto para crianças impossíveis, de Jacques Prevêrt, além de coleções como Mulheres Modernistas e coleção Paulo Emílio. Desde 2007 coordena a parte de criação gráfica da área infanto-juvenil. Teve trabalhos expostos na 7a, 8a e 9a Bienais de Design Gráfico da Associação de Designers Gráficos do Brasil. Ganhou prêmios pelos livros Lampião e Lancelote (3º lugar em capa - 49º Prêmio Jabuti, 2007) e Fera na selva (2º lugar em projeto gráfico – 50º Prêmio Jabuti, 2008) e em 2009, primeiro lugar em projeto de capa pelo livro Moby Dick (51º Prêmio Jabuti, 2009). Em 2008, o livro Experiência Neoconcreta foi selecionado pelo American Institute of Graphic Arts para a exposição 50 Books/50 Covers of 2007, em Nova York. Ganhou o Prêmio TIM (2008) pelo projeto gráfico do CD “Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar” do artista Siba.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Azincourt
Design de Marcelo Martinez

Azincourt
Autor: Bernard Cornwell
Designer: Marcelo Martinez, Laboratório Secreto
Editora: Record
Ilustração: Igor Campos e Marcelo Martinez
Fonte: Typographiction
Acabamento: Verniz UV localizado, multiplicando o número de flechas.
Como você se tornou um designer de capas de livros?
O Laboratório Secreto, meu estúdio, também atende clientes de mercados de cultura, moda, publicidade. Mas sempre puxei a brasa para o lado editorial, que sou fascinado. Adoro livros, revistas, gibis, cheiro de papel, gráfica, provas de cor, etc. O objeto livro, aquele retângulo de cerca de 15 x 23 cm, é um suporte fantástico para comunicar ideias. Acho que fiz cerca de 250 capas, até hoje. Não é tanto assim, se comparado a produção de outros designers brasileiros que atuam na área.
O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?
Num projeto de design, é fundamental entender quem é o receptor da sua mensagem. Então temos que saber para quem é aquele livro, quem é o público. Que códigos visuais este tipo de leitor está acostumado, o que pode ser associado ao texto, ao autor. E aonde podemos quebrar as regras, "esticar um pouco a corda", provocar um pouco mais, despertar a curiosidade. Cada capa tem um tom de voz próprio. As vezes, é para gritar, outras vezes, para falar baixinho. Mas todas tem que dizer "ei, me pega, sou um livro legal!" Aí o leitor folheia, e decide (espero) pela compra. Não acredito que uma capa sozinha venda um livro, salvo raras exceções. Mas ela pode ajudar (muito), ou atrapalhar (bastante) a carreira do livro.
Como foi o processo criativo para esta capa? Houve um direcionamento específico que levou ao resultado final? Havia alguma limitação, dificuldade ou desafio específico colocado no briefing? Como fez para superá-lo?
Bernard Cornwell é publicado no Brasil desde 2001, sempre pela Editora Record. Nestes nove anos, foram 21 livros (incluindo o Sharpe mais recente, que estamos terminando), todos com capas nossas. Então, este processo criativo começou lá em 2001, ainda na Porto+Martinez, quando eu e o Bruno propusemos ao Edmundo Barreiros, nosso editor da época, fazer uma capa diferente para "aquele projeto novo daquele tal autor inglês de ficção histórica". O Edmundo foi quem nos chamou para o projeto, quem achou que o trabalho tinha a nossa cara, que o autor valia a aposta. Nos deu total liberdade na criação e bancou todas as ideias malucas que tivemos. Fizemos uma sobre capa em papel prateado com impressão em policromia por cima, além de um verniz tb prateado (que exigiu diversos testes de cor, até chegar no resultado que queríamos). Então, começou assim. Como deu certo, outros títulos foram sendo programados, e nosso desafio passou a ser estabelecer uma linguagem gráfica para o autor, procurando "provocar" os leitores a cada novo título. Se você comparar as capas que fazemos com as originais, verá que a ideia sempre foi fugir daquele esquemão best-seller estrangeiro (titulo e autor enormes, e um capacetinho ou similar no espaço que resta, eheh). Minha ideia era aproximar os livros de graphic novels, utilizando ilustrações menos "enciclopédicas", e mais autorais, impactantes, com composições e enquadramentos mais dinâmicos.

Houve alguma etapa de preparação antes de começar a criar?
Azincourt não é uma série, é um livro isolado (em tese, pois se tratando do Cornwell, sempre existe a possibilidade de rolar uma seqüência...rs). Então, dentro do processo que estabelecemos para os livros do Cornwell, essa capa começa com a definição do que será a mensagem principal, o que a imagem representa, em qual estilo de ilustração seria o ideal para a tarefa. Esboçamos a imagem, fazemos rafes da composição, e só então partimos para contatar o ilustrador que se encaixe no projeto. No caso de Azincourt, a ilustração foi feita internamente, aqui no estúdio, meio a quatro mãos, com o Igor dando a forma final baseado nos meus pitacos.
Você trabalha em colaboração com outra pessoa, tipo ilustrador? Como se dá o processo?
Além da equipe do estúdio, buscamos, sempre que o projeto permita, trabalhar com outros profissionais que enriqueçam o resultado.
Os livros do Cornwell sempre tem ilustrações na capa. A série "Crônicas de Artur" foi ilustrada por um gaúcho, o Kipper; A "Busca do Graal", pelo Daniel Morena. Eu fiz a ilustração de "O condenado". Renato Alarcão faz a série do Sharpe, e o paulista Kako fez as das "Crônicas Saxônicas". Quase sempre, o ilustrador trabalha baseado em rafes nossos, já com a capa leiautada.
Qual a fonte utilizada, o que a levou a escolher essa fonte?
Geralmente adaptamos fontes, desenhandos acentos, ligaduras, redefinindo serifas, etc. Aqueles letterings gótigos de " A busca do Graal" foram desenhados como logotipos independentes, baseados em fontes mais ou menos no estilo. Nos de "Crônicas de Artur" criamos uma fonte de títulos inspirada em uma antiquíssima versão do "Pai nosso" encontrada em um livro. Havia sido escrita no século V, em um dialeto que misturava caracteres romanos com escrita rúnica, e que foi usado para difundir o cristianismo naquela região em que se passa a história do livro. Achamos os caracteres interessantes, e vimos que a partir deles poderíamos girar, espelhar, e fazer um "r", um "e", e assim por diante. Em Azincourt a fonte é uma versão levemente modificada de Typographiction, desenhada nos anos 90 por Matius Grieck para a [T-26].

O que você diria ser o que faz essa capa funcionar, o que faz dela ser o que é?
Acho que fica dentro do escopo das outras. Usa uma paleta de cores um pouco diferente, combinando 'britanicamente' azuis, vermelhos e brancos, eheh. O layout é bem dinâmico, o verniz dá um charme a mais, multiplicando as muitas flechas que estão caindo na capa. Gosto do resultado, minha preocupação era que ficasse bem diferente de "O Arqueiro". E é bacana saber que os leitores estão colocando esta entre suas favoritas.
Alguma coisa a mais que gostaria de acrescentar sobre o processo de criar capa?
Nestes livros do Cornwell, existe uma sintonia entre as idéias. Isabella Leal, editora atual, também participou do processo desde os primeiros livros, conhece bem as séries, e nós dois entendemos que o trabalho é a continuidade daquele raciocínio gráfico, visual, que começou lá atrás. Antes dela, teve o Felipe Harrison, também compreendia e respeitava esta unidade natural. Nunca foi proposto para a gente soluções fáceis, viciadas ou clichês comerciais. Mesmo nos casos como as capas de "O Arqueiro", "O Andarilho" e "O Herege", que trazem títulos verticais (e "menos legíveis"), o que ainda é considerado um pecado mortal, um suicídio comercial em muitos lugares. Repare, não estou dizendo que as capas eram revolucionárias, anarco-experimentais ou coisa assim, eheh. Muito pelo contrário, a idéia não é essa. Capas de livro são peças de comunicação, com objetivos comerciais. Acontece que, muitas vezes, existem vícios do mercado que engessam o projeto – o que não aconteceu. Estas capas não perderam seu apelo de vendas, e o leitor saiu ganhando.
Marcelo Martinez é artista gráfico, nascido no Rio de Janeiro (RJ). Em maio deste ano, foi um dos cinco designers brasileiros convidados pelo Netherlands Photo Museum, de Roterdã, Holanda, para integrar a mostra de artes visuais Brazil Contemporary, que apresentou projetos de design, videografismo e fotografia. Seu portfólio foi incluído no livro Latin American Graphic Design, editado pela Taschen Books. Teve projetos exibidos e premiados em mostras de design, ilustração e animação na Argentina, Bélgica, Brasil, China, França, México e Portugal; e publicaod em revistas como Print Magazine, Supon Books e Rockport Publishers. É membro do conselho-diretor da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil, e professor de direção de arte na Escola de Design da UniverCidade – RJ. Desenvolve projetos pessoais em animação e tipografia, e está à frente do Laboratório Secreto, estúdio de design gráfico e ilustração especializado em projetos para os mercados cultural, editorial e publicitário. Siga no twitter @martinez_m

Azincourt
Autor: Bernard Cornwell
Designer: Marcelo Martinez, Laboratório Secreto
Editora: Record
Ilustração: Igor Campos e Marcelo Martinez
Fonte: Typographiction
Acabamento: Verniz UV localizado, multiplicando o número de flechas.
Como você se tornou um designer de capas de livros?
O Laboratório Secreto, meu estúdio, também atende clientes de mercados de cultura, moda, publicidade. Mas sempre puxei a brasa para o lado editorial, que sou fascinado. Adoro livros, revistas, gibis, cheiro de papel, gráfica, provas de cor, etc. O objeto livro, aquele retângulo de cerca de 15 x 23 cm, é um suporte fantástico para comunicar ideias. Acho que fiz cerca de 250 capas, até hoje. Não é tanto assim, se comparado a produção de outros designers brasileiros que atuam na área.
O que você acredita que faz de uma capa de livro uma boa capa de livro?
Num projeto de design, é fundamental entender quem é o receptor da sua mensagem. Então temos que saber para quem é aquele livro, quem é o público. Que códigos visuais este tipo de leitor está acostumado, o que pode ser associado ao texto, ao autor. E aonde podemos quebrar as regras, "esticar um pouco a corda", provocar um pouco mais, despertar a curiosidade. Cada capa tem um tom de voz próprio. As vezes, é para gritar, outras vezes, para falar baixinho. Mas todas tem que dizer "ei, me pega, sou um livro legal!" Aí o leitor folheia, e decide (espero) pela compra. Não acredito que uma capa sozinha venda um livro, salvo raras exceções. Mas ela pode ajudar (muito), ou atrapalhar (bastante) a carreira do livro.
Como foi o processo criativo para esta capa? Houve um direcionamento específico que levou ao resultado final? Havia alguma limitação, dificuldade ou desafio específico colocado no briefing? Como fez para superá-lo?
Bernard Cornwell é publicado no Brasil desde 2001, sempre pela Editora Record. Nestes nove anos, foram 21 livros (incluindo o Sharpe mais recente, que estamos terminando), todos com capas nossas. Então, este processo criativo começou lá em 2001, ainda na Porto+Martinez, quando eu e o Bruno propusemos ao Edmundo Barreiros, nosso editor da época, fazer uma capa diferente para "aquele projeto novo daquele tal autor inglês de ficção histórica". O Edmundo foi quem nos chamou para o projeto, quem achou que o trabalho tinha a nossa cara, que o autor valia a aposta. Nos deu total liberdade na criação e bancou todas as ideias malucas que tivemos. Fizemos uma sobre capa em papel prateado com impressão em policromia por cima, além de um verniz tb prateado (que exigiu diversos testes de cor, até chegar no resultado que queríamos). Então, começou assim. Como deu certo, outros títulos foram sendo programados, e nosso desafio passou a ser estabelecer uma linguagem gráfica para o autor, procurando "provocar" os leitores a cada novo título. Se você comparar as capas que fazemos com as originais, verá que a ideia sempre foi fugir daquele esquemão best-seller estrangeiro (titulo e autor enormes, e um capacetinho ou similar no espaço que resta, eheh). Minha ideia era aproximar os livros de graphic novels, utilizando ilustrações menos "enciclopédicas", e mais autorais, impactantes, com composições e enquadramentos mais dinâmicos.

Houve alguma etapa de preparação antes de começar a criar?
Azincourt não é uma série, é um livro isolado (em tese, pois se tratando do Cornwell, sempre existe a possibilidade de rolar uma seqüência...rs). Então, dentro do processo que estabelecemos para os livros do Cornwell, essa capa começa com a definição do que será a mensagem principal, o que a imagem representa, em qual estilo de ilustração seria o ideal para a tarefa. Esboçamos a imagem, fazemos rafes da composição, e só então partimos para contatar o ilustrador que se encaixe no projeto. No caso de Azincourt, a ilustração foi feita internamente, aqui no estúdio, meio a quatro mãos, com o Igor dando a forma final baseado nos meus pitacos.
Você trabalha em colaboração com outra pessoa, tipo ilustrador? Como se dá o processo?
Além da equipe do estúdio, buscamos, sempre que o projeto permita, trabalhar com outros profissionais que enriqueçam o resultado.
Os livros do Cornwell sempre tem ilustrações na capa. A série "Crônicas de Artur" foi ilustrada por um gaúcho, o Kipper; A "Busca do Graal", pelo Daniel Morena. Eu fiz a ilustração de "O condenado". Renato Alarcão faz a série do Sharpe, e o paulista Kako fez as das "Crônicas Saxônicas". Quase sempre, o ilustrador trabalha baseado em rafes nossos, já com a capa leiautada.
Qual a fonte utilizada, o que a levou a escolher essa fonte?
Geralmente adaptamos fontes, desenhandos acentos, ligaduras, redefinindo serifas, etc. Aqueles letterings gótigos de " A busca do Graal" foram desenhados como logotipos independentes, baseados em fontes mais ou menos no estilo. Nos de "Crônicas de Artur" criamos uma fonte de títulos inspirada em uma antiquíssima versão do "Pai nosso" encontrada em um livro. Havia sido escrita no século V, em um dialeto que misturava caracteres romanos com escrita rúnica, e que foi usado para difundir o cristianismo naquela região em que se passa a história do livro. Achamos os caracteres interessantes, e vimos que a partir deles poderíamos girar, espelhar, e fazer um "r", um "e", e assim por diante. Em Azincourt a fonte é uma versão levemente modificada de Typographiction, desenhada nos anos 90 por Matius Grieck para a [T-26].

O que você diria ser o que faz essa capa funcionar, o que faz dela ser o que é?
Acho que fica dentro do escopo das outras. Usa uma paleta de cores um pouco diferente, combinando 'britanicamente' azuis, vermelhos e brancos, eheh. O layout é bem dinâmico, o verniz dá um charme a mais, multiplicando as muitas flechas que estão caindo na capa. Gosto do resultado, minha preocupação era que ficasse bem diferente de "O Arqueiro". E é bacana saber que os leitores estão colocando esta entre suas favoritas.
Alguma coisa a mais que gostaria de acrescentar sobre o processo de criar capa?
Nestes livros do Cornwell, existe uma sintonia entre as idéias. Isabella Leal, editora atual, também participou do processo desde os primeiros livros, conhece bem as séries, e nós dois entendemos que o trabalho é a continuidade daquele raciocínio gráfico, visual, que começou lá atrás. Antes dela, teve o Felipe Harrison, também compreendia e respeitava esta unidade natural. Nunca foi proposto para a gente soluções fáceis, viciadas ou clichês comerciais. Mesmo nos casos como as capas de "O Arqueiro", "O Andarilho" e "O Herege", que trazem títulos verticais (e "menos legíveis"), o que ainda é considerado um pecado mortal, um suicídio comercial em muitos lugares. Repare, não estou dizendo que as capas eram revolucionárias, anarco-experimentais ou coisa assim, eheh. Muito pelo contrário, a idéia não é essa. Capas de livro são peças de comunicação, com objetivos comerciais. Acontece que, muitas vezes, existem vícios do mercado que engessam o projeto – o que não aconteceu. Estas capas não perderam seu apelo de vendas, e o leitor saiu ganhando.
Marcelo Martinez é artista gráfico, nascido no Rio de Janeiro (RJ). Em maio deste ano, foi um dos cinco designers brasileiros convidados pelo Netherlands Photo Museum, de Roterdã, Holanda, para integrar a mostra de artes visuais Brazil Contemporary, que apresentou projetos de design, videografismo e fotografia. Seu portfólio foi incluído no livro Latin American Graphic Design, editado pela Taschen Books. Teve projetos exibidos e premiados em mostras de design, ilustração e animação na Argentina, Bélgica, Brasil, China, França, México e Portugal; e publicaod em revistas como Print Magazine, Supon Books e Rockport Publishers. É membro do conselho-diretor da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil, e professor de direção de arte na Escola de Design da UniverCidade – RJ. Desenvolve projetos pessoais em animação e tipografia, e está à frente do Laboratório Secreto, estúdio de design gráfico e ilustração especializado em projetos para os mercados cultural, editorial e publicitário. Siga no twitter @martinez_m
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Penguin Clothbound Classics – Série 2
Design de Coralie Bickford-Smith
Ratos de livraria já devem ter percebido (ao menos, na Livraria Cultura) uma luxuosa coleção da Penguin Books de clássicos encadernados em capa dura, com capas de tecido. A coleção, cuja primeira leva incluía Flaubert (Madame Bovary), Charles Dickens (Grandes Esperanças), Austen (Orgulho & Preconceito, Razão & Sensibilidade), Oscar Wilde (Retrato de Dorian Gray) e Dostoievski (Crime e Castigo), entre outros, foi criada para ser vendida exclusivamente na rede de livrarias inglesa Waterstone. Felizmente não tão exclusivamente assim – comprei Orgulho e Preconceito (imagem à esquerda), meio de impulso mas não me arrependo, na Cultura de Porto Alegre no começo do ano.

Agora há uma segunda leva (e espero ver ela logo nas prateleiras por aqui). Também criada pela designer inglesa Coralie Bickford-Smith (que fez o design da coleção Boy’s Adventures e Sherlock Holmes para a Penguin), é delírio estético pra bibliófilo nenhum botar defeito: o estilo de Bickford-Smith, sempre privilegiando paletas de duas cores e padronagens tipográficas, dá todo um ar de livrão clássico, como se tivesse sido produzido manualmente numa prensa tipográfica a cem anos atrás. A encadernação é com tecido, cada capa repete um padrão que se identifica com o conteúdo: as ondas na Odisséia, os papagaios na Ilha do Tesouro. E tem uma fitinha de marca-página (com a cor combinando com o livro, claro – são essas pequenas frescuras que fazem a diferença num projeto assim).

Essa nova fornada de livros inclui Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, Oliver Twist (Dickens), O Cão dos Baskervilles (Conan Doyle), Emma (Jane Austen), A Odisséia (Homero), A Ilha do Tesouro (Stevenson), A Mulher de Branco (Wilkie Collins), Sonetos e Uma queixa de um amante (Shakespeare), O Amante de Lady Chatterley (D.H. Lawrence) e Mulherzinhas (Louise May Alcott).
Ratos de livraria já devem ter percebido (ao menos, na Livraria Cultura) uma luxuosa coleção da Penguin Books de clássicos encadernados em capa dura, com capas de tecido. A coleção, cuja primeira leva incluía Flaubert (Madame Bovary), Charles Dickens (Grandes Esperanças), Austen (Orgulho & Preconceito, Razão & Sensibilidade), Oscar Wilde (Retrato de Dorian Gray) e Dostoievski (Crime e Castigo), entre outros, foi criada para ser vendida exclusivamente na rede de livrarias inglesa Waterstone. Felizmente não tão exclusivamente assim – comprei Orgulho e Preconceito (imagem à esquerda), meio de impulso mas não me arrependo, na Cultura de Porto Alegre no começo do ano.
Agora há uma segunda leva (e espero ver ela logo nas prateleiras por aqui). Também criada pela designer inglesa Coralie Bickford-Smith (que fez o design da coleção Boy’s Adventures e Sherlock Holmes para a Penguin), é delírio estético pra bibliófilo nenhum botar defeito: o estilo de Bickford-Smith, sempre privilegiando paletas de duas cores e padronagens tipográficas, dá todo um ar de livrão clássico, como se tivesse sido produzido manualmente numa prensa tipográfica a cem anos atrás. A encadernação é com tecido, cada capa repete um padrão que se identifica com o conteúdo: as ondas na Odisséia, os papagaios na Ilha do Tesouro. E tem uma fitinha de marca-página (com a cor combinando com o livro, claro – são essas pequenas frescuras que fazem a diferença num projeto assim).

Essa nova fornada de livros inclui Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho, Oliver Twist (Dickens), O Cão dos Baskervilles (Conan Doyle), Emma (Jane Austen), A Odisséia (Homero), A Ilha do Tesouro (Stevenson), A Mulher de Branco (Wilkie Collins), Sonetos e Uma queixa de um amante (Shakespeare), O Amante de Lady Chatterley (D.H. Lawrence) e Mulherzinhas (Louise May Alcott).
Post inaugural
Esse novo blog surgiu da vontade de ter um espaço pra comentar sobre design de livros e capas. Quem me conhece, sabe que essa tem sido uma paixão pessoal e profissional desde o meu primeiro dia de carreira, como estagiário na Agência Experimental da PUCRS, fazendo capas para a editora da universidade, até o momento em que, junto com outros cinco amigos, demos início numa editora própria e independente, a Não Editora, onde volta e meia desenvolvo a capa de alguns dos lançamentos.
Pretendo atualizar esse blog com mais frequência do que atualizo meu blog pessoal, de preferência de dois em dois dias. Vamos ver como as coisas se saem. Pra começar, semana passada foi lançado o novo livro de ensaios de um dos meus autores favoritos, Michael Chabon, com o ótimo título de Manhood for Amateurs: The Pleasures and Regrets of a Husband, Father, and Son. O design é de Will Staehle (willstaehle.com), do estúdio Lone Wolf/Black Sheep, para a Harper Collins. Staehle já havia feito a capa do livro anterior de Chabon, The Yiddish Policeman Union. Sabe-se lá se um dia será publicado no Brasil (livro de ensaios por livro de ensaios, antes desse Chabon lançou também o excelente Maps & Legends, pela McSweeney`s).

Atualizando: total falta minha: o pai da idéia desse blog foi o Guilherme Smee, que eventualmente, aparecerá por aqui como colaborador, comentando capas de quadrinhos.
Pretendo atualizar esse blog com mais frequência do que atualizo meu blog pessoal, de preferência de dois em dois dias. Vamos ver como as coisas se saem. Pra começar, semana passada foi lançado o novo livro de ensaios de um dos meus autores favoritos, Michael Chabon, com o ótimo título de Manhood for Amateurs: The Pleasures and Regrets of a Husband, Father, and Son. O design é de Will Staehle (willstaehle.com), do estúdio Lone Wolf/Black Sheep, para a Harper Collins. Staehle já havia feito a capa do livro anterior de Chabon, The Yiddish Policeman Union. Sabe-se lá se um dia será publicado no Brasil (livro de ensaios por livro de ensaios, antes desse Chabon lançou também o excelente Maps & Legends, pela McSweeney`s).

Atualizando: total falta minha: o pai da idéia desse blog foi o Guilherme Smee, que eventualmente, aparecerá por aqui como colaborador, comentando capas de quadrinhos.
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